O ser humano… Que “ser humano”?

Este pretendido ensaio poderia também ser intitulado: “A espécie invertida”. Logo descobrirão o porquê…

               Charles Darwin (1809-1882), festejado naturalista britânico que criou a teoria da evolução das espécies por meio da seleção natural e sexual, mui provavelmente tenha sido e continue sendo uma das figuras mais proeminentes do naturalismo, no planeta. Seus axiomas, certeiros e fundamentados, trouxeram luz à compreensão do desenvolvimento das incontáveis espécies vivas e também daquelas já desaparecidas que habitaram este castigado planeta do Sistema Solar. Todavia, a Árvore da Vida de Darwin hoje já demanda ajustes e atualizações necessárias em razão de novas descobertas e da inclusão, como variáveis de extrema relevância, de correlações pela intervenção de micro-organismos (bactérias, vírus, fungos) que interagem com as espécies em sentido genérico. A estas podem ser acrescidos diversos fenômenos decorrentes das novas tecnologias (radioatividade, degeneração do meio-ambiente em razão de poluentes artificiais, camadas de ozônio, etc.) que derivam na exclusão de várias espécies que dão lugar a outras ajustadas a tais fatores. É o processo de adaptação ao meio, natural nos seres vivos.

             Mas há, ainda, mais um fator variável que, no decorrer dos séculos, foi crescendo, se multiplicando, se aperfeiçoando e se diversificando, estendendo seus poderosos tentáculos sobre não apenas a espécie Homo, como também sobre todas as demais espécies que com este coabitamo fator normativo legal e todo o seu arcabouço teórico e prático[1] A sociedade humana é dinâmica tal qual o é o próprio indivíduo que a compõe e a ela se adapta. Não há, portanto, padrões engessados; há, sim, padrões cambiantes de projeção e incidência interna e externa ao indivíduo. E todas as espécies existentes o comprovam naturalmente (seja em seus aspectos físicos, como químicos e micro/macro-estruturais). Estas singelas constatações nos permitem formular um axioma:

A capacidade cognitiva do ser humano, fundamental diferencial deste ante as demais espécies, lhe permite – paradoxalmente – obrar em duplo sentido: para o seu benefício e para sua destruição e a do seu meio vital. É seu poder de livre-arbítrio.

QUE ROL DESEMPENHA O SER HUMANO EM SEU MEIO-AMBIENTE?

      Grosso modo, o ser humano estaria situado no ápice da cadeia alimentar. Aditivamente, traz em sua genética o crítico diferencial do seu funcionamento cognitivo associado à sua linguagem. Mas o cerne da questão não reside nesta associação, senão que remete à linguagem como instrumento de comunicação com os demais e consigo mesmo, permitindo que todo humano possa funcionar mentalmente “num nível de abstração que sem ele seria impensável” (PAZ, 2015, seção XXI) [2]. Esta é a grande capacidade que o humano possui e que o diferencia das demais espécies.

          Numa eventual resposta apriorística à questão suscitada no título e complementada pela formulada neste sub-título, poder-se-ia arriscar esta premissa derivada do saber de Reboratti (apud BONILLA, 2012:25) [3]: hipoteticamente, o ambiente terráqueo estaria dividido em três setores: (1) natureza; (2) ser humano e seus artefatos; (3) ambiente, num papel de ‘intermezzo’ entre a natureza “virgem” e o mundo artificial construído pela inteligência humana. Mas – questionaria um atento observador -, há como separar esses três setores com uma delimitação precisa da alçada de cada um deles? Por certo que não há; seria uma tentativa carregada de apriorismo. A interação entre eles é constante (e não cíclica), o que gera uma dinâmica existencial em movimento de “perpetuum mobile”. Um processo de ação ==> reação # causa ==> efeito (Weber) que, na prática, dificilmente permite que se conheçam antecipadamente seus limites de interferência e respectivos resultados.

                    Em suma, esta breve e primária explanação parece mais que suficiente para compreender o permanente estado de caos existente na sociedade humana e, por óbvio, seus resultados imprevisíveis – seja no sentido que for -, com reflexos incontroláveis para todos os ambientes ora identificados em parágrafo preliminar. Depreende-se do exposto que, mesmo com todo um largo e complexo – e não raro conflitivo – arcabouço normativo e jurisprudencial, crescente em razão diretamente proporcional à passagem do tempo, não apenas continuamos vivendo em bases frágeis (lato sensu), como também seguimos persistindo em privilegiar (atos, ações, decisões [reações], etc.) escolhas que não coadunam com os princípios “naturais” do ser humano, ao menos no que concerne a valores éticos (também naturais) que deveriam sobrepor-se às “naturais” iniquidades humanas. Qual seria a provável causa dessa inaturalidade (Platão)?

                A resposta ao exposto é relativamente simples: o ser humano (como vimos ao início) vem à vida com uma bagagem genética, uma herança adquirida através de gerações pretéritas e sucessivas que vão “moldando” o indivíduo segundo variáveis (controláveis e incontroláveis) que mudam de geração para geração, mas que deixam rastros, alguns indeléveis. Todavia, o indivíduo humano nunca deixa de sê-lo, i.e., nunca deixa de pertencer à sua espécie (humana). Neste diapasão, um sugestivo estudo do filósofo indiano, Shrii Prabhat Rainjan Sarkar (1921-1990) [4], nos traz interessantes postulados que merecem ser mencionados e analisados – mesmo que en passant -. Exponhamos-los, ainda que condensados:

  1. Filósofos do passado reconheciam que o ser humano é um animal racional. Aceita esta premissa, estaríamos reconhecendo que nós somos animais e que a única diferença entre nós, humanos, e as demais espécies animais seria a racionalidade, certo? Errado, segundo Sarkar.
  2. Existem inúmeras diferenças entre a vida das plantas, a vida dos animais e a vida do ser humano. Se bem é fato que existem fatores comuns entre a vida de plantas, humanos e animais (as três espécies requerem alimentos, luz e água para sobreviverem, ademais de necessitarem dormir, procriar e morrer, o que em hindu é conhecido como dharma), elas diferenciam-se pelos tipos de células e pelo fator fundamental de animais e plantas não possuírem um destino ideológicoenquanto o ser humano possui um objetivo ideológico, diferentes objetivos de vida, capacidade de superar os obstáculos na procura por esses objetivos, etc. Portanto, parece incabível afirmar que o ser humano é um animal racional, sob pena de estar-se afirmando que um animal é uma planta que se move.
  3. A ciência conhecida como Antropologia Filosófica possui fulcro na análise e estudo aprofundado, sob diversas óticas, das características e construção humana, quando inserta no meio social em que prevalece a espécie Homo, i.e., o nosso meio social, regente dos destinos do planeta.

                   Em suma, poderíamos condensar esta linha teórica num aspecto crítico: o ser humano é único no reino natural dos seres vivos, das espécies vivas. Nada obstante possam surgir incertezas derivadas da incapacidade do humano em alcançar a onisciência, é certo e irrefutável que o ser humano é exclusivo nos reinos animal e vegetal. Assentada esta assertiva, nos toca agora ingressar, como ponto final, a uma questão que consideramos crucial: há um “futuro” para a espécie humana?

O SER HUMANO E SUAS PERSPECTIVAS DE FUTURO COMO ESPÉCIE

             Domenico Parisi é um cientista investigador italiano contemporâneo, componente do staff de cientistas-pesquisadores do Laboratory of Autonomous Robotics and Artificial Life com sede em Roma (Itália) e institutos espalhados no território italiano, cuja missão está centrada na pesquisa e desenvolvimento de estudos profundos em temas centralmente focados nos processos cognitivo, comunicativo e linguístico, em ampla escala. Pois bem. Parisi cria uma figura fictícia que lhe serve como interlocutor para suas lições a respeito do indivíduo humano: é Martian Eye (ME), um cientista do planeta Marte que certo dia desce na Terra com o objetivo prioritário de estudar a raça humana devido à sua complexidade como espécie; um verdadeiro desafio à cientificidade marciana. Nas palavras desse visitante marciano – traduzidas por Parisi (2014:01) [5] :

“O seres humanos alimentam muitos desejos e muitos temores concernentes a si próprios e estes desejos e temores obscurecem o conhecimento que eles possuem de si próprios. Pensam que são o que gostariam de ser e eles não são o que não gostam de ser [grifamos]. São inevitavelmente antropocêntricos. Se vêm como o centro do mundo”.

                 A parábola marciana, em realidade, parece perfeita para compreender que o ser humano, mesmo que não o reconheça explicitamente, coloca-se como centro do universo. Mais: pensa, programa e age como tal, ao menosprezar (e até desprezar) não apenas as milhões de espécies que com ele convivem (aí incluídos seus próprios semelhantes), mas também aquelas que, potencialmente – seguindo uma lógica pura – poderiam existir nesse vasto universo que o rodeia e que ele imagina e pretende que seja racionalmente controlável.

             Na contramão desse falacioso e insustentável pensamento, situam-se nas próprias ações humanas, grosseiras contradições que comprovam o logro contido nestas suas convicções mirabolantes e – por que não dizer? – petulantes ao extremo. Tão arrojada (e irresponsável) postura o leva a tomar decisões que acabam por reverter em seu próprio prejuízo, causando-lhe perplexidade, impotência, desespero, temor, nada obstante (e mesmo a despeito destes sentimentos) persista em suas ações tresloucadas, extremas e incontroláveis da sua mania de grandeza no papel de centro absoluto de todas as espécies que com ele coabitam. Aliás, foi a partir desta constatação (dentre outras) que nasceu minha tese “O homem: esse projeto mal-acabado” (1976), desafiando todas as crenças ingênuas e pretensamente científicas que o colocam como virtual “centro do seu micro-cosmo vital”.

À GUISA DE CONCLUSÃO

            A implacável mídia, em sua insana sede de sensacionalismo mercantilista deletério, vem colaborando ativamente na potencialização dos gravíssimos problemas que afligem as relações intersubjetivas da sociedade humana. Em termos populares, em todos os tempos têm corrido oceanos de sangue que transbordam, hoje, de jornais, revistas sensacionalistas, blogs e programas televisivos, como a incentivar a carnificina desenfreada e desencadeada pela bizarra mente humana. Contra seus semelhantes e contra tudo o que o rodeia e que possui vida. Uma massacre ímpar, mas nada incomum. Infelizmente. A longa história humana registra esse oceano vermelho desde as primeiras civilizações situadas nos antigos territórios do Egito e da Mesopotâmia, nos idos do IV milênio antes da Era Cristã. Poder-se-ia afirmar, até, que tão bizarro fenômeno é “marca registrada” da espécie humana.

                   Dentre as milhões de espécies existentes em nosso planeta, a humana é a única vítima e ao mesmo tempo algoz de si própria e das demais que com ela coabitam. Um curioso e enigmático paradoxo, embora plenamente explicável. Afinal, nenhuma outra espécie segue tão bizarro padrão comportamental (ostensivamente autofágico), simplesmente porque não possuem razão, raciocínio lógico, domínio de linguagem, auto-consciência, valor moral. Basta proceder a superficial recorrido por todas as épocas pretéritas da história humana e constatar, sem grandes dificuldades, a supremacia da destruição sobre a construção e o aprimoramento humanos, em sentido lato. Noutros termos, o indivíduo humano, dentre todas as demais espécies, é o projeto que deu errado.

                    Desprezando o aspecto rústico e imaginoso do texto a seguir (recebido de um velho amigo publicitário e jornalista), parece-me pontual e adequado transcrevê-lo a título de criatividade certeira para ilustrar o que acabo de afirmar:

“[…] a raça humana não combina com o universo … o mito de Adão e Eva expulsos dos Paraíso sempre me faz pensar que havia outra civilização e o casal foi expulso de lá por mau comportamento … soltos na Terra entregues a própria sorte – como uma colônia penal. É o que a Terra me parece: uma colônia penal. Razão pela qual sobrevive no inconsciente coletivo ou memória ancestral a ideia da culpa e do pecado. Deves imaginar o que Adão e Eva devem ter aprontado no tal Paraíso […]” (Um amigo  que prefere permanecer anônimo).

                 Por derradeiro, resta dizer que todo aquele fator normativo legal e todo o seu arcabouço teórico e prático, supra-mencionados, quando contrapostos à realidade prática e histórica (milenar), deixam a nu a fragilidade humana; sua excessiva irracionalidade; sua ingente incapacidade de conviver pacificamente em sociedade, seja com indivíduos da sua espécie, seja com as demais espécies; seu perenemente latente instinto de destruição e de auto-destruição; sua insaciável gana de poder; seu egocentrismo exacerbado; todos, fatores que apontam para um final nada feliz para nossa espécie.

                  Quem viver, verá…

 

 

*

NOTAS E REFERÊNCIAS
[1] Estudo o Direito desde minha adolescência (há meio século), não apenas como mera ciência jurídica, mas sim desde o crítico ângulo da Deontologia, i.e., as obrigações, os deveres e as regras sob um enfoque eminentemente ético.
[2] PAZ, Castor M. Pensar la Psicología. Madrid: Siglo XXI de España Editores, 2015.
[3] BONILLA, Alcira B. Bioética y Medio Ambiente. In: “Bioética: meio ambiente, saúde pública, novas tecnologias, deontologia médica, direito, psicologia, material genético humano”, Joaquim Clotet (Org.). Porto Alegre: EDIPUCRS, 2012.
[4] SARKAR, Shree P. R. Neo-Humanism: Principles and cardinals values, sentimentality to spirituality Human Society. Willow Springs (USA): Vimaleshananda Avt./Ananda Marga Publications, 2012.
[5] PARISI, Domenico. Future robots: Towards a robotic science of human beings. Philadelphia (USA): John Benjamins North America, 2014

 

 

 

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