Qual a razão de existência da Vida Humana?

Teria a vida humana uma razão de ser? Em sendo positiva a resposta, qual seria essa “razão”? Manutenção da espécie? Procriação pura e simples? Preservação em sentido lato? Ou simplesmente existir por existir, algo como um movimento perpetuum mobile, aleatório?

J.Köffler – February 2019

Há um mecanismo pré-definido que determina, para cada espécie, as características básicas do seu habitat ideal, i.e., no qual poderá desenvolver, de maneira adequada e natural, seu ciclo de existência. Ao ser humano, lhe coube um habitat ampliado, significando dizer que, havendo uma atmosfera respirável para seu sistema cardiorespiratório, as restantes condições são passíveis de adaptação (em duplo-sentido de compreensão).

Todavia, a questão formulada ainda não foi respondida convincentemente. O biólogo norteamericano agraciado com o Prêmio Pulitzer, Edward O. Wilson (1929-…), entomologista renomado, quando confrontado com a questão que titula este despretencioso ensaio que vos escrevo, respondeu à mesma de maneira magistral:

“Temos suficiente inteligência, benevolência,  generosidade e iniciativa como para converter a  Terra num paraíso, tanto para nós como para a  biosfera que nos engendrou. Podemos alcançar esse  objetivo de maneira verossímil, ao menos ir pelo  bom caminho em fins deste século [refere-se ao Séc. XXI]. O problema que está freiando este processo é  que o Homo Sapiens é uma espécie disfuncional  de maneira inata“, conclui. Com o adjetivo “disfuncional” o eminente cientista quer se referir ao que denominei em minha tese como “erro de projeto” ou “projeto mal-acabado” [*]. Noutros termos, toda a perfeição da máquina humana (indiscutível) ressente-se de certas disfunções que comprometem seu desempenho como tal, prejudicando o resultado final de algumas opções que terminam por ser mal-sucedidas. Simples (em termos, óbvio).

[*] (Minha tese de 1976: “O homem: esse projeto mal-acabado”).

O douto cientista, supracitado, serve-se de um termo (em Espanhol, “ralentizar”) sem similar em nossa língua pátria, que corresponde aos verbos “frear, deter, atrasar, parar” e que no contexto deste texto corresponderia a “deter ou atrasar”. Nas palavras do referido autor:

“A maldição paleolítica nos há refreado [detido,  atrasado]: as adaptações genéticas que  funcionaram muito bem durante milhões de anos  de caçador recoletor, são cada vez obstáculo maior  numa sociedade urbana e tecno-científica global. Não parecemos capazes de estabilizar nem as  políticas econômicas, nem os meios de governo a  um nível superior ao de um povo. Mesmo  assim, a grande maioria da gente do mundo  segue sendo escrava de religiões tribais  organizadas” [negritas no original].

(i.e., somos dependentes das crenças abstratas, etéreas)

Observem, caros leitores, a pontualização de uma verdade inatacável e que acompanha nossa espécie desde longínquas eras: as religiões e sua  incessante (e nada saudável) intromissão no seio  das famílias e da própria sociedade em sentido  lato. 

Pois bem. Afinal, há interferência ou relação causal entre religião e comportamento? Alain Peyrefitte (“La sociedad de la Confianza”, Ed. Andres Bello, 1996), ilustre acadêmico e festejado político francês contemporâneo, nos traz uma luz sobre o tema em tela.

Em sua obra (supracitada), o referido estudioso se questiona: “Como estar seguros de que existe uma relação causal entre as formas de devoção e o comportamento?” (p. 455). Sua dúvida é fundamentada: se  utilizarmos um método estatístico mediante análise  de uma amostra (retirada, digamos, de uma mensuração numa igreja junto aos seus parroquianos participantes numa missa), como ter certeza de que elementos dessa  amostra não estarão mentindo? Se tais mensurações não fossem sistemáticas (para uma mesma amostra, em dias indeterminados), “o comportamento  religioso [poderia]  se ver influenciado, ou até determinado pelo peso do  entorno cultural” (idem, ibidem).

 Assim, não parece possível, a priori, seguir esse caminho científico a fim de elucidar nosso impasse.

Optemos, então, por outra trilha sinuosa: a  complexidade social do ser humano. Pablo Navarro, investigador-chefe do Instituto Pasteur (México, DF)  no Grupo de Estudos da Epigenômica, Proliferação e a Identidade das Células, nos traz lições que merecem ser ao menos mencionadas en passant. Vejamos os aspectos mais relevantes destacados por este brilhante investigador. Partamos, pois, de uma primeira questão por ele planteada: “[…] como fomos capazes os humanos de criar sociedades  tão complexas como as atuais, tão complexas como a  moderna sociedade dos nossos dias, envolvida numa  dinâmica clara de globalização, empenhada num  processo que parece destinado a transforma-la numa  autêntica sociedade planetária?” As respuestas a estas complexas questões partem de uma constatação básica: do indivíduo humano primitivo ao indivíduo humano pós-moderno (nossos dias), todo o processo de  transformação passou por incontáveis etapas  continuadas de aprendizagem, adaptação, readaptação e até exclusão (nalguns casos) das/às condições  ambientais, sociais, estructurais, culturais,  civilizatórias, naturalmente mutantes ao longo de toda  a história humana, e assim segue ‘ad aeternum’.

Particularmente, assim, somos céticos em que, num indeterminado dia, venhamos a descobrir a verdade verdadeira ao respeito do fenômeno da vida e do papel que foi atribuído ao humano neste imensurável e intrincado universo inextricável, o que nos leva ao desafio de, ao menos parcialmente, intentar responder à questão inicial: Qual a razão de existência da vida humana?

Teríamos uma razão de existir?

Caro(a) leitor(a): você já parou para refletir – refletir efetivamente! se há uma razão legítima e fundamentada de nós, seres humanos, tidos como “racionais, inteligentes, cordatos”,  existirmos, e cuja força seja tanta que nos motive a persistir vivendo numa diuturna luta sem quartel,  perseguindo objetivos que, mui provavelmente, nunca  irão se concretizar por completo? Quando (e se) você se formular tal questão, sugiro que pare,  reflita em profundidade (passado, presente e futuro desejado),  pense com toda seriedade, racionalidade e concentração,  e se efetivamente cônscio dessas variáveis e da sua  realidade até esse ponto, tente responder à mesma com  a maior sinceridade e empatia que lhe for possível;  escreva sua resposta e guarde-a em lugar que não  esquecerá.  E então, parta para a luta a fim de conquistar sua longa caminhada, seguindo um padrão sugerido:

  • Registre seus objetivos, passo-a-passo.
  • Marque-os, antes de passar ao seguinte, seguindo esta classificação: atingido; atingido parcialmente; não atingido; em  stand-by (reanalizar e adequar); abandonado.
  • Aponte erros e acertos para alcançá-los;
    • dificuldades superáveis;
    • dificuldades insuperáveis;
    • abandono do objetivo.
  • Substituição por outro objetivo (e, então, novo processo).

Em linhas muito simplificadas, esta seria uma estratégia que lhe permitiria organizar o planejamento dos seus passos futuros. Mas a questão central (dupla) é fundamental: (a) até que ponto de perseverança o indivíduo comum se predisporia a planejar suas ações e  controlá-las? (b) quais seriam suas reações ante uma sucessão de fracassos indesejados ou inesperados?

Na dinâmica de vida destes tempos ditos “pós-modernos” (seja lá o que esta expressão signifique), a olho nu é fácilmente perceptível que são poucos os indivíduos que organizam seu modus vivendi. A larga maioria, dadas as condições cada vez mais céleres de tal dinâmica, agem ou por impulso ou em base à  sistemática “tentativa-erro”, significando, neste especial caso, um percentual muito elevado de erros que redundam em decadência da qualidade de vida. Infelizmente, esta é nossa triste, mas insofismável realidade humana.

Nossa razão de existir, diante deste cenário, é mais que difusa, convenhamos. Noutros termos, em nossa existência há regras pré-estabelecidas (convencionadas por nossas sociedades) e fortuítas (impostas pelo meio natural) às quais devemos nos ajustar ou, eventualmente, sanear mediante artifícios que estejam ao nosso alcance e atendam aos nossos interesses. Esta é, em suma, a mecânica que move o ser humano em seu hábitat.

Referências Bibliográficas

KOFFLER A., Juan Y. O Homem: esse Projeto Mal-Acabado. Buenos Aires: Fevereiro, 1976.

NAVARRO, Pablo. Conceptos: Las dos fuentes de la Complejidad  Social Humana. México (DF): Universidad Nacional de México, 2004, pp. 9 e ss.

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